OS
IMPRESSIONISTAS
Carlos
P. Marques,
Prof.º de História
caomarques@hotmail.com
A
Revolução Industrial foi ao mesmo tempo
causa e conseqüência de um surto de desenvolvimento
tecnológico e descobertas científicas
que mudaram o panorama europeu rapidamente. A segunda
metade do século XIX, época que nos
interessa no momento, foi revolucionária em
vários sentidos. O veloz desenvolvimento da
indústria gerou um enorme crescimento de grandes
cidades. Invenções como a eletricidade
tornaram as comunicações mais rápidas,
assim como o transporte com o navio à vapor,
o automóvel e o trem. Diversos inventos maravilhavam
a população, entre os quais a fotografia
que iria desempenhar um papel relevante no desenvolvimento
da pintura em, pelo menos, dois aspectos: foi decisiva
na ruptura com a perspectiva renascentista e no desprestígio
do tema na pintura. Estas e outras transformações
revolucionárias na arte foram levadas à
cabo por um grupo de pintores que os historiadores
da arte chamam “Impressionistas”,
ainda que não tenha sido sempre um grupo coeso
e que alguns tenham seguido caminhos independentes.
Com esse nome, talvez, nos referimos mais ao período
(final do séc. XIX) do que ao movimento ocorrido
principalmente em Paris, então a capital artística
da Europa.
A
técnica da perspectiva foi matematicamente
estabelecida no séc. XV, tendo o arquiteto
Brunelleschi (1337-1446),
construtor da cúpula da catedral de Florença,
papel decisivo nessa descoberta. Após sua divulgação
em livro por Allberti (1452)
obteve rápida e larga aceitação
entre artistas e público apreciador da arte.
Esta técnica consiste em produzir a ilusão
de profundidade utilizando o “ponto de fuga”,
em que a pintura é vista de um único
ponto de vista. Isto se deve ao fato de que reproduz
uma visão monocular, semelhante a que temos
ao olhar por um buraco de fechadura ou uma câmara
escura, com na fotografia. Ou seja, trata-se de uma
convenção óptica ou um realismo
convencional. Os artistas perceberam que nossos olhos,
com visão binocular, não vêem
as coisas assim e passaram a procurar novas maneiras
de representar espaço, volume, profundidade,
luz, sombra, etc. Historiadores da arte consideram
como ruptura final com a perspectiva renascentista
o quadro de Picasso, “Les
Demoiselles d’Avignon” (1910) e o
Cubismo.
A
fotografia interferiu no papel do tema em pintura
absorvendo pouco a pouco funções que
pertenciam à pintura como o retrato, por exemplo.
E vendo a inutilidade de competir com a fotografia
em reproduzir a realidade, os artistas sentiram a
necessidade de buscar novos temas e novos caminhos
para a arte.
Os
Impressionistas, pelos motivos que acabamos de relacionar
(e por outros) passaram a buscar inspiração
para sua arte longe dos estúdios e sua luz
artificial. Assim dedicaram-se à pintura ao
ar livre (Plen Air) e onde a luz, o ar, as cores eram
tudo. O tema ou o modelo não significava nada.
Tanto fazia pintar um rei como batatas. L’art
pour l’art – arte para os artistas,
arte pela arte – proclamavam. Foi quando finalmente
entendi o motivo pelo qual se pinta uma natureza-morta:
o tema não importa, mas a técnica, o
arranjo, as cores, os volumes, o brilho, etc.
Esses
artistas que estavam realizando revoluções
na arte tiveram um início nada promissor. Depois
estariam para sempre entre os campeões mundiais
da popularidade em arte. De tanto serem rejeitados
nos austeros salões organizados pela Academia
de Arte, onde os críticos ditavam o que era
e o que não era arte digna de ser exposta nos
grandes museus e exposições, artistas
como Monet, Manet,
Cézanne (entre vários
outros) organizaram o que foi chamado de “Salão
dos Recusados” (1874), título
visivelmente pejorativo. De fato, nesta exposição
realizada no “Boulevard des Capucines”
no estúdio do fotógrafo Nadar,
seguidor e apoiador do grupo, o público e a
crítica compareceram para escarnecer das obras
e de seus autores, para rir dos quadros e ridicularizar
os pintores. A crítica especializada foi impiedosa.
Ouçam o que se disse de Cézanne:
“O senhor Cézanne não pode
ser outra coisa a não ser uma espécie
de louco a sofrer de delirium tremens quando pinta.”
E sobre todos eles: “alienados, doentes
da loucura da ambição”. Aliás,
um dos críticos mais ferozes e que achou o
título de um quadro de Monet
particularmente ridículo, só entrou
para a história ao batizar o grupo desdenhosamente
de “impressionistas”.
Trata-se do quadro “Impressão, Sol
Nascente” o qual o tal crítico assim
classificou: “o papel pintado em estado embrionário
está mais acabado do que esta marina”.
Depois o termo pejorativo foi adotado pelo grupo e
passou aos livros de história da arte.
Gênios
revolucionários da arte. Não se pode
dizer menos desses homens. Cézanne
(1839-1906), que se retirou desgostoso com a rejeição
para criar uma arte “sólida e duradoura”
tornando-se o precursor do Cubismo e o “Colombo
da pintura moderna”. Manet
(1832-1883) interessado em jogos de luz e sombra com
fortes contrastes provocando protestos entre os conservadores.
Monet (1840-1926) o pintor
da luz e da cor e suas rápidas pinceladas.
Van Gogh (1853-1890) que
perdeu a sanidade e a vida para iniciar uma revolução
artística. Gauguin
(1848-1903) que se arruinou-se desenvolvendo sua arte
entre os nativos de ilhas exóticas. Degas
(1834-1917) em suas adoráveis bailarinas em
ângulos inusitados. Renoir (1841-1919)
e seu extraordinário talento no uso das cores.
Toulouse Lautrec (1864-1901)
e o movimento das bailarinas e o can can. E Pisarro,
Seurat, Sisley...
Pode-se
passar horas, anos, ou mesmo uma vida inteira - Ars
longa, Vita brevis...- só admirando
as obras do período dos Impressionistas mesmo
que seja em reproduções baratas. Falar
nisso, muito boa a idéia da Folha de São
Paulo e os “Grandes Mestres da Pintura”.
Para
encerrar devo dizer que na minha família o
espírito ARTE PARA TODOS já
tem rendido bons frutos. Já circulam livros
de arte e algumas idéias, obras e pintores
são discutidos. E minha mãe com sua
crítica ácida continua detonando quantos
mestres da pintura cruzem seu caminho. Outro dia ela
punha a mesa para o almoço e sobre esta estava
um livro de arte com “La Gioconda”
estampada na capa. Falávamos sobre seu sorriso
quando minha mãe saiu-se com esta: - Esta Mona
Lisa e essa boquinha de quem comeu e não gostou!
Não é demais? Arte Para Todos!!!
Até a próxima!