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Crônica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Arte e Minha Mãe

Carlos P. Marques,
Prof.º de História
caomarques@hotmail.com

Certa feita, numa pequena reunião em família, e não sei porque cargas d’água surgiu o nome do grande pintor espanhol Miró. Explico: discussões sobre arte não são freqüentes na minha família, e muito menos profundas. O certo é que minha mãe saiu-se com esta: - Esse Miró...O Raí pinta melhor que ele! – referia-se ao neto de 6-7 anos. Ignorante em arte, contestei – Mas, mãe, é um dos maiores pintores do mundo! – Então porque aqueles rabiscos e borrões que não se entende nada? – finalizou ela, já que esgotaram meus pobres argumentos em favor do grande Miró.

Minha mãe gosta de arte e cobre quase que inteiramente as paredes de sua casa com arte e artesanato. Tem bom gosto e dedica-se com esmero na montagem dos seus arranjos. Mas não quer ir além disso, no que não há nada de errado. De fato, o famoso historiador da arte Gombrich afirma: “não penso que existam razões erradas para se gostar de um quadro”. Mas acrescenta: “Há razões erradas para não se gostar de uma obra de arte.” Enfim, minha mãe refuta Miró por não conhecer Miró, e na verdade não quer conhecê-lo. Se basta com seu senso estético pessoal e é melhor que deixemo-la com suas preocupações supramaternais e a decoração da casa.

Qual o problema deste tipo de abordagem de uma obra de arte – o gosto pessoal? Deixamos de fruir com a máxima intensidade essa obra de arte. Minha mãe – pela última vez – quer ver num quadro algo que se entenda, ou seja, arte figurativa, realista, que retrate de forma bela a realidade. Este é seu parâmetro para julgar o talento de um pintor e, por isso, considera Miró um charlatão.

Preconceito. Este o maior obstáculo, segundo Gombrich, para um melhor desfrute de uma obra de arte. Algo aconteceu comigo. Não gosto, nunca gostei de arte sacra cristã, e este é um tema predominante na história da arte. Encarando desta forma a arte rejeitei vários dos maiores pintores por puro preconceito. Algo estúpido como deixar de apreciar quadros com paisagens montanhosas por não praticar alpinismo. Certamente há temas que prefiro a outros, mas agora tento manter a mente aberta para que isto não seja empecilho à uma melhor apreciação de qualquer obra de arte. Este seria um primeiro passo para uma mais rica fruição da arte. Outros são necessários. É Gombrich quem nos diz que gosto não se discute, mas pode ser desenvolvido. Uma maior sensibilidade pode ser adquirida com o olhar – exercitar os olhos – e o estudo. Ver a arte também é uma forma de arte.

“A Arte de Ver a Arte” é justamente o nome de um livro que pode ser um valioso guia de iniciação à contemplação da arte. Nele, a autora expõe as diferentes abordagens que podemos fazer de uma obra de arte, ou os vários níveis de conhecimento e fruição que podem ser extraídos dela pela contemplação.

Podemos começar indagando qual a finalidade da obra e qual o objetivo do pintor quando meteu mãos à obra. Sabemos que muitas pinturas foram encomendadas por ricos e poderosos para ocasiões especiais e para ser expostas num local específico, assim como a obra deveria ter essas ou aquelas características, etc. Assim como devemos ter em mente que grande parte das grandes pinturas não foram feitas para serem expostas nas paredes de museus de arte. E o que chamamos de arte egípcia em sua maioria não se destinava a olhos humanos e sim aos deuses no pós-vida.

Em seguida podemos analisar ou conhecer a cultura em que a pintura foi produzida. Era uma cultura rica em que as idéias circulavam livremente e havia debates, ou o contrário? Por exemplo.

Podemos indagar do realismo ou não da pintura. Se o autor procurou retratar fielmente o que via, e, se não o fez, por quê? Estas perguntas são válidas para qualquer obra, mas em se tratando de arte moderna será uma pergunta constante.

Outro nível de análise é a formal e atém-se aos aspectos da construção ou disposição da pintura. Que formas, linhas e cores usou o pintor ao criar a obra? Como tratou de questões como volume, distãncias, etc.?

Podemos, também, examinar a relação da pintura com a sociedade que a produziu. Qual a importância da obra para a sociedade? Esta sociedade se interessa por arte? Compra ou admira pinturas? E assim por diante.

E finalmente (para começar...) podemos situar a obra fazendo sua cronologia e contexto histórico, relacionando estilos e períodos artísticos. Uma História da Arte por concisa que seja será um importante auxílio nesse aprendizado. Existem outros níveis de análise, alguns envolvendo significações ocultas e simbologias. Outros, mais profundos, falam em significações colocadas de modo inconsciente pelo autor. O que importa é que a cada análise e contemplação estaremos em plena viagem de descobrimento. E que de cada viagem de descoberta voltamos enriquecidos com novos conhecimentos e insights. As grandes obras de arte tem o poder de se mostrarem diferentes a cada vez que tornamos a elas, seja na pintura, música ou literatura. Mas isso vem com o tempo. Terminamos com mais alguma palavras de Gombrich: “Não existe Arte com A maiúsculo. Existem somente artistas. (...) Aquilo que chamamos “obras de arte” não é fruto de uma atividade misteriosa, mas são objetos feitos por seres humanos para seres humanos.” De modo que estamos todos habilitados a apreciar a arte ou a grande arte (uns pintores são melhores ou muito melhores que outros. Enfim, a arte é para todos! Inclusive minha mãe. – Freud, pelo amor de Deus!

Bibliografia utilizada:

GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

WOODFORD, Susan. A arte de ver a arte. São Paulo: Zahar, 1986.